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    Sem Desafinar

    Sem Desafinar

    “Essa é minha verdadeira chance de me aprimorar como artista e performer”

    Cair na estrada se apresentando de cidade em cidade é enredo comum na vida de Karina Zeviani. Seu primeiro palco foram as ruas do interior de São Paulo, pelas quais desfilava, ainda criança, à frente da banda marcial de Jaboticabal (sua cidade natal) como baliza. Atrás dela vinham os músicos, e entre eles estavam seu pai, irmão e tio. “A banda era muito boa”, garante ela.

     

    Aos 15, saiu de casa para virar modelo da Ford. “Lembro-me de dizer que queria ser cantora e não modelo. Aliás, quero ser cantora desde que tenho oito anos, quando descobri Elis Regina e Secos e Molhados”, pontua. Anos mais tarde, vivendo na Alemanha, deixou de lado as passarelas para começar a cantar na noite, em um bar brasileiro.

     

    Foi em solo alemão que a moça compôs sua primeira música. Rabiscou letras, criou melodias e sentiu que podia seguir caminhando nessa direção. Voltou para o Brasil e batalhou por um patrocínio para gravar um cd demo com duas canções próprias. Álbum pronto, fez as malas de novo e saiu do país. Depois de uma curta temporada em Londres, onde foi exposta a música eletrônica, seguiu para Nova York.

     

    Cantou em brunchs de restaurantes, como fazem as cantoras em começo de carreira por lá, deu canjas em alguns bares, conheceu pessoas. Em um evento da ONU foi convidada para abrir o show de Gilberto Gil. Até que, em 2005, um amigo em comum a apresentou para David Byrne (fundador do Talking Heads). O encontro deu frutos: ele gostou das músicas dela e a indicou para a banda Thievery Corporation com a qual estava gravando na ocasião.

     

    Karina foi contratada. “Rodamos o mundo tocando. Entrei no universo musical profissional e isso me deu muito mais gana para desenvolver meu trabalho solo”, conta. Um dia, se aventurando em um vôo solo em NY, onde abria o show para o Nouvelle Vague, Karina se aproximou da banda francesa. Tempos depois, em 2008, viria o convite e a moça se tornaria uma das cantoras do grupo. De lá pra cá, dividiu seu tempo e sua voz entre as duas bandas e alguns projetos pessoais. “Antes de gravar meu primeiro álbum solo, que lanço agora em março, comecei e parei dois discos pela metade. Foi um caminho longo até achar a sonoridade de voz que realmente me agradava e as músicas que entrariam no cd”, revela.

     

    O début

    Na contagem regressiva para lançar seu primeiro disco, Karina não esconde seu contentamento. “Sinto que essa é minha verdadeira chance de me aprimorar como artista e performer. Subir no palco cantando com o Nouvelle músicas que todo mundo conhece é entrar em campo com o público ganho. A estrutura já está pronta. Precisa só colocar a voz e o carisma. Está sendo um grande desafio voltar a cantar para 100 pessoas, em palcos pequenos e com pouca luz. Mas não faz sentido ficar na minha zona de conforto por muito tempo. Quero novos desafios para aprimorar o que faço”, revela.

     

    O cd “Amor inventado”, com 11 faixas, é inteiro autoral - mas cheio de parcerias. No repertório, há músicas que a moça escreveu há 13 anos. “Fiz um apanhado de coisas por onde passei, mas também canto sobre meu momento atual. Cheguei a gravar músicas mais conceituais, artísticas e acabei readaptando o projeto para conseguir chegar em algo mais fácil de ser digerido”. As canções têm pitadas de lúdico e de psicodélico. “Ainda sou influenciada pela infância, pelo circo, por desenhos animados, pela banda marcial de Jaboticabal. As crianças gostam do meu trabalho, e acho isso ótimo porque sou louca por elas”.

     

    As constantes viagens a trabalho com as bandas levaram Karina a gravar seu disco em cinco cidades pelo mundo: Paris, Nova York, Washington, Rio de Janeiro e Salvador. Com o material pronto bateu na porta de algumas gravadoras e foi bem recebida por Marcelo Soares, da Som Livre. Apesar do selo de peso, é ela quem tem que correr atrás de tudo para fazer deslanchar sua carreira. “Fizemos uma boa parceria, mas não tem mais essa história de uma gravadora te prometer mundos e fundos. E acho isso bom, porque quero estar envolvida com tudo o que diz respeito a minha carreira. Quero saber que cada fã que ganho é fruto do meu trabalho”, conta.

     

    A missão de conquistar o público parece ser o grande combustível que move a moça. Recentemente, em um show que fez em um evento no Rio de Janeiro, minutos antes dela entrar no palco, o público se dispersou e foi para o outro lado do salão, de costas para ela. Karina não pensou duas vezes: caminhou até onde eles estavam, subiu na mesa, e cantou de lá mesmo. Sucesso absoluto! “Não dá para contar com o fato de as pessoas da plateia conhecerem sua música. É o talento e a presença de quem está representando aquilo que conta pontos. Como em uma peça de teatro, que o público nunca viu, só dá para saber na hora se agrada ou não. Quando se sobe no palco é preciso defender seu trabalho da maneira que for possível, para transcender o fato de as pessoas nunca terem te ouvido antes”, ensina.

     

    Coragem e determinação nunca faltaram à bela cantora, que saiu de casa menina para desbravar o mundo. Ela lembra que no meio da carreira descobriu ter dóis nódulos nas cordas vocais. Minutos depois de receber a notícia perguntou para o médico se podia operar na mesma semana. O desejo de seguir cantando sempre foi mais forte do que qualquer obstáculo. “Me sinto muito abençoada por ter tido a chance de entrar para o showbusiness pela porta da frente e recebido um talento de presente. Mas trabalhei muito pra isso acontecer. Não é que isso tudo bateu na minha porta e eu estava pronta com 20 anos. O tempo de amadurecimento foi longo”. O público agradece!