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    Gente Boa: Tatiana Issa

    Gente Boa: Tatiana Issa

    “Eles foram importantes para preservar a liberdade num momento delicado da história do Brasil”

    Modernos, genuínos e com uma genialidade a frente de seu tempo, o grupo teatral Dzi Croquetes foi a expressão máxima da cultura artística libertária, no ápice da ditadura militar no Brasil.


    Apesar de boa parte da geração que tem hoje entre 30 e 40 anos terem uma vaga lembrança, quem teve a oportunidade de freqüentar o beco das garrafas no Rio de Janeiro ou o teatro Treze de Maio na capital paulistana, no final da década de 70, nunca se esqueceu do que viu.

     

    É o que garantem Claudia Raia, Miguel Falabella, Ney Matogrosso, Nelson Motta, Pedro Cardoso e outros artistas que beberam da fonte dos Dzi e deram seus depoimentos ao recém-lançado,  porém já no topo da lista dos mais premiados documentários brasileiros, que leva o nome da trupe e acaba de angariar o décimo segundo troféu: o “Best Film Award” no 14º Festival de Filmes Brasileiros de Miami.

     

    Nem homem, nem mulher, gente. Era assim que os próprios integrantes do grupo, liderados pelo dançarino norte-americano Lennie Dale, que trouxe o profissionalismo da Broadway para a cena artística nacional, se definiam.

     

    A diretora do documentário e atriz Tatiana Issa é a nossa personagem Gente Boa da vez. “Resgatar qualquer memória no Brasil é muito importante porque não temos o hábito de reverenciar a nossa própria história. Os “Dzi” -como carinhosamente os chama- foram revolucionários de uma forma inteligente, eles foram importantes para preservar a liberdade num momento delicado da história do Brasil”.

     

    Tatiana e sua filha Cloe, de sete anos, residem em Nova Iorque mas estão entre uma viagem e outra, colhendo os frutos da produção que está para lá de bem montada e com um apelo sentimental comovente. “Eu crio a Cloe da mesma maneira que fui criada. Dentro dos limites do que é seguro, mas com fortes estímulos para que ela aprenda a arriscar, ousar, fugir dos padrões. Não existe não sem uma justificativa, nem um horário especifico para dormir, comer. Eu acredito nisso como forma de fomentar a criatividade artística nela.”

     

    Esta mãe dedicada tem uma carinha bastante familiar ao grande público, pelas muitas participações em novelas e series globais, como Hilda Furacão, O Fim do Mundo e Guerra dos Sexos. Tatiana fez muito teatro, é filha do holding dos Dzi Croquettes e nunca se esqueceu da infância privilegiada em que acompanhou o grupo de “palhacinhos” como os enxergava do baixo de seus menos de sete anos. “Para mim eles eram palhacinhos, que viviam sempre fantasiados e que faziam apenas o que queriam”.

     

    O documentário mostra que o espetáculo protagonizado pelos 13 dançarinos, atores e comediantes, de talento indiscutível, deixou platéias internacionais de queixo caído e muitos fãs pela Europa, absolutamente encantados com o talento deles.  “Fazer documentário é se debruçar no passado e no presente para construir o futuro. O público, em especial o europeu, gosta da coisa verdadeira, do jogo de descobrir e contar historias. É muito valioso movimentar transformações dentro das pessoas para que elas ajam”, comemora Tatiana.

     

    “Nos anos 90, as produções televisivas começaram a cair num padrão. Foi ficando tudo muito repetitivo, baseado numa fórmula segura. E isso gerou este círculo vicioso em que nos encontramos. Estamos acomodados com a coisa pronta, digerida. Eu gostaria que o público se permitisse mais, estivesse mais aberto a descobrir, se questionar”, acrescenta a moça.

     

    Boa amante da linguagem verdadeira e de contestação, Tatiana não se acomodou e pelas suas andanças pelo mundo, encontrou alguns grupos que ainda levantam a bandeira do experimentalismo.

    É o caso do Teatre du Soleil em cartaz na capital parisiense, que ainda mantêm as bases do teatro de grupo e produção coletiva. O espetáculo acontece numa antiga fábrica de armas que fica a vinte minutos de Paris. “O grupo recebe refugiados de vários países. Todo mundo cozinha para todo mundo. Tem uma pegada política, misturando Moliere, com o movimento político que toma a cena no interior da índia.”, conta com bastante entusiasmo.

     

    Para Tatiana, o valor de grupos como este está no fato de que quem faz parte sai formado da a vida. “ Viver ali, significa passar por todas as fases de produção. É o conceito de teatro-escola em que a gestão acredita que todos são iguais, a diretora ganha o mesmo salário de quem acabou de chegar. E o resultado é excepcional.”, garante.

     

    Tatiana e seu sócio, o ex-dançarino da Broadway Raphael Alvarez, tem planos para o futuro próximo. Já pensam no próximo documentário, fruto de uma período que passaram pela Amazônia. O filme apresentará o tradicional festival de Parintins para o mundo. Aguardem!