Em busca do equilíbrio natural

Por Emi Sasagawa - 10/05/2012

Conheça o consultor de I Ching que vem trazendo a cultura oriental para o Brasil.

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Em busca do equilíbrio natural
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“Na realidade, não precisamos fazer nada para ser sábios."

Hoje, vivemos em uma corrida constante contra o tempo, sempre preocupados com milhares de afazeres, mas nunca dispostos a parar um minuto sequer. Esse comportamento nos leva a uma vida pouco construtiva e de rara contemplação dos mais simples milagres da natureza. Em vez disso, preferimos racionalizar, analisar, explicar tudo o que cruza nosso caminho. Será mesmo essa a maneira mais sábia de viver? Palestrante, consultor e professor de I Ching e Taoísmo, Roberto Otsu, diz que não.

Nascido em 1958, em São Paulo, Otsu viveu os primeiros anos de sua vida em um sítio, junto à natureza. Aos seis anos mudou-se com sua família para a capital, onde estudou, cresceu e terminou o ensino médio. Fez alguns cursos de desenho e decidiu tentar uma carreira em publicidade. Para isso, se formou em Comunicação Social e Educação Artística, abrindo, em 1985, sua escola de desenho. A essa altura, ele mal sabia que a vida o havia reservado algo muito diferente.

Seu interesse pela Cultura Chinesa começou em 1976, aos 18 anos, com a leitura das obras do escritor e filósofo Lin Yutang. “Lembro-me nitidamente de ler Importância de Viver. Pela primeira vez entendi com clareza as diferenças entre o modo de vida oriental e ocidental.” A partir daí, estudou Taoísmo, Confucionismo e Zen-budismo. “Acredito ter lido todas as versões do Tao Te Ching – um dos textos mais profundos da sabedoria chinesa – que consegui encontrar em português. E a cada leitura, buscava um entendimento melhor da filosofia.”

No final da década de 1980, Otsu iniciou seus estudos de Psicologia Junguiana. Nessa mesma época começou a receber de amigos e colegas de trabalho cópias do I Ching – O Livro das Mutações –, como sugestão de leitura. “Confesso que eu tinha certo preconceito em relação ao livro. Achava que somente as coisas racionais faziam sentido. Como poderia algo que parecia tão místico ser lógico? Então, eu guardava os materiais que recebia, sem sequer dar uma olhada.”

Mas isso mudou quando um dia, caminhando, Otsu encontrou na vitrine de uma livraria uma versão do I-Ching que continha um prefácio escrito por Carl Gustav Jung. “Pensei comigo mesmo, se Jung escreveu o prefácio, então o I-Ching deve ter alguma credibilidade. Comprei o livro e na mesma hora sentei para lê-lo. Tinha uma viagem marcada para a semana seguinte e, como experiência, decidi fazer a minha primeira consulta a esse oráculo antes de partir. Anotei a resposta em um papel, sem compreender certamente o que queria dizer. Para a minha surpresa, tudo começou a fazer sentido na viagem. Não conseguia acreditar. E foi assim, que o meu apego à racionalidade foi por água a baixo.”

Em 1997, Otsu iniciou suas atividades como palestrante, consultor e professor de I Ching e Taoísmo. Nove anos depois, publicou o seu primeiro livro, A sabedoria da Natureza, no qual usou as tradições orientais para traçar paralelos entre as leis da natureza e um comportamento humano sábio. O texto é divido em quatro partes: as lições da água, do bambu, das árvores e do céu. Do mesmo modo que os mestres taoístas, Otsu utiliza frases simples e profundas, por exemplo, “A água vai pelo caminho mais fácil” e “O bambu curva-se no vendaval para não quebrar”, para inspirar os seus leitores a lidar com a vida de uma maneira mais perspicaz e harmoniosa.

Anos mais tarde, em 2008, Otsu publicou o seu segundo livro, O caminho Sábio, uma tradução autêntica do Tao Te Ching. “Durante todos os anos que estudei o Taoísmo encontrei várias traduções desse livro, mas nenhuma delas conseguia transmitir com exatidão o texto original. Eram tantas retraduções do chinês ao português, que muito do conteúdo era perdido.” Por isso, no seu livro, Otsu priorizou resgatar os 81 aforismos de Lao-Tsé com cuidado e precisão.

“Acredito muito na importância de incorporar o modo de pensar oriental – o raciocínio dedutivo e a postura contemplativa, que nos capacita a olhar para o todo.” O I-Ching tem três premissas principais. Primeiro, a natureza é sábia; segundo, o ser humano integra a natureza, sendo regido por suas regras; e terceiro, a verdadeira sabedoria consiste em seguir as leis da natureza. “Tudo isso compõe uma cosmovisão; ou seja, uma visão de mundo”, explica Otsu.

O problema, de acordo com o autor, é que, nos dias de hoje, perdemos essa noção, deixando de ver que tudo no planeta é interdependente e interconectado. Isso resulta na nossa falta de respeito e reverência pela natureza e, consequentemente, no desequilíbrio das nossas vidas. Mas Otsu é otimista: “Na realidade, não precisamos fazer nada para ser sábios. Já nascemos com as predisposições da humanidade. O necessário agora é des-cobrir a nossa percepção intuitiva, retirando os preconceitos que a escondem.”

Segundo o professor, as coisas estão mudando. A cada dia, mais pessoas acordam para a importância de valorizar a natureza e a nossa intuição. “Basta observarmos quantos de nós buscamos formas de melhorar a nossa qualidade de vida por meio de atividades, por exemplo, a ioga. Queremos que a nossa vida valha a pena, para isso precisamos aprender a não viver tão desesperadamente.”, completa. Para os mestres chineses a natureza é sábia e para Otsu, agora é a hora de começar a ouvir o que eles têm a dizer.

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