

Um líder inato. Esse é Chinaider Pinheiro, o Latino, como era conhecido na comunidade de Vigário Geral, favela de onde coordenava o crime organizado de toda baixada fluminense antes de virar o jogo e se tornar uma nova referência para toda uma classe de jovens que cresce em meio às favelas do Rio de Janeiro.
Por Pedro Dias; Edição Maíra Valladares
Foto: Carlos "Fofinho" Souza
Chinaider Pinheiro entrou para o crime organizado do Rio de Janeiro com um objetivo: proteger o irmão. No entanto, a carreira deu tão certo que, apesar da morte de seu protegido, ele se tornou chefe das favelas de Vigário Geral (sua ‘terra natal’), Parada Angélica, Novo Horizonte, Mariantes, Parque das Missões, Inferninho e Santa Lúcia, todas na Baixada Fluminense.
Em 1997, aos 21 anos, foi preso. Entre fugas e recapturas, ficou 10 anos e quatro meses atrás das grades. Sua vida mudou quando José Junior, coordenador do Afroreggae, lhe fez uma proposta. Ele daria a Chinaider um cargo na ONG e lhe pagaria um salário satisfatório com o qual fosse possível sustentar sua família. Ao deixar a prisão, em 24 de dezembro de 2008, voltar para Vigário Geral não era mais uma opção, nem a passeio. Depois que ele foi preso, a facção rival vizinha assumiu a área. Sensibilizado com a proposta do colega José Júnior, o Latino – como era conhecido na comunidade –, aceitou a oferta.
Atualmente, é estudante de direito e coordenador do projeto ‘Empregabilidade’, do grupo cultural Afroreggae, que ajuda a recolocar ex-presidiários no mercado de trabalho. Casado, com dois filhos desta união e mais quatro de relacionamentos anteriores, Chinaider Pinheiro não tem mais nada a esconder e conta detalhes que fizeram a diferença em sua trajetória na entrevista a seguir:
AsBoasNovas.com: Depois de sair da cadeia você não podia entrar em Vigário Geral devido ao risco de ser atacado por traficantes. Você já conseguiu voltar para lá?
Chinaider Pinheiro: Já. No trabalho com o Afroreggae levo empresários, estudantes e civis para visitar nosso núcleo em Vigário Geral e em outros complexos. Muita coisa mudou. Hoje, a comunidade tem acesso a algumas coisas que acho básicas, como saneamento e cultura, e a educação escolar pode melhorar ainda mais. Os moradores são muito comunicativos e carinhosos com os visitantes que levamos. Ao mesmo tempo, essas pessoas veem com seus próprios olhos a falta de atenção do governo com a comunidade e percebem que nem todo favelado é criminoso ou conivente com o crime.
ABN: O sistema prisional prepara os detentos para reinserção na sociedade?
CP: Com o trabalho desenvolvido atualmente, isso não acontece. A reinserção é impossibilitada pela administração carcerária, pois existe uma restrição muito grande aos trabalhos de ressocialização. O sistema carcerário é, na verdade, um lugar onde se amontoam pessoas para serem punidas. A sociedade tem que rever seu pensamento de vingança contra esses indivíduos, pois as pessoas não ficarão na prisão para sempre e um dia, quando saírem, vão revidar com o mesmo tratamento recebido. É a lei da vida. Por isso, acredito que somente a educação, ou melhor, a reeducação, pode transformar esses indivíduos. Sou exceção porque o Afroreggae acreditou em mim.
ABN: Como você vê a gestão do Secretário de Segurança Pública José Mariano Beltrame? Como você vê as favelas do Rio hoje, depois da pacificação?
CP: A visão social do trabalho dele no estado do Rio de Janeiro é maravilhosa, mas uma andorinha só, não faz verão. Ele precisa de apoio da iniciativa privada e também dos governos locais para tomar mais iniciativas nas comunidades. Sinceramente, acho interessantes as ocupações. Porém, ressalto que tudo deveria ser acompanhado por meio de câmeras de segurança. É claro que não seria possível colocar câmeras em todas as vielas, mas sim em lugares estratégicos. O que faria com que os responsáveis pela ordem se intimidassem um pouco, para que quando fossem tomar alguma medida repressora, não viessem a cometer arbitrariedades, como o excesso de violência.
ABN: Como os moradores das favelas veem a instalação das UPPs?
CP: Alguns moradores são contra e outros a favor. Os que são contra acabam por sofrer retaliação policial ou militar. Aqueles que concordam vivem a incerteza sobre a continuidade da pacificação, temendo que o crime possa reconquistar o território e cobrar pela traição de terem apoiado a polícia.
ABN: O que mudou na lógica comercial do tráfico depois das ações de pacificação?
CP: Muita coisa resistiu à pacificação. Em vários lugares, continuam existindo armas e violência. O que aconteceu foi uma diminuição das atividades naqueles locais mais conhecidos do povo, da polícia e da mídia. Mas, você pode ter certeza de que o tráfico não acabou e nunca acabará. O que pode ser feito é diminuir ainda mais a violência. Para isso, é preciso que cada um faça o seu papel, não discrimine e ajude nessa missão árdua que é levar cultura e educação às comunidades.
ABN: Quais as consequências do tráfico para os moradores das comunidades cariocas?
CP: Os moradores não sofrem com a atuação do tráfico nas favelas do Rio de Janeiro, senão ele não resistiria. Quando a comunidade não quer, o tráfico não tem como subsistir naquela localidade. A população pode denunciar o tempo todo e o crime não tem como ficar repondo as perdas que sofre com a atuação da polícia. Por isso, os traficantes realizam eventos, distribuem cesta básica, oferecem remédio a alguns moradores, fazendo justamente o que o Estado, em sua ausência, deixa de fazer.
ABN: O que você faz atualmente no Afroreggae?
CP: Sou coordenador do projeto ‘Empregabilidade’. Você não tem noção da felicidade que é para mim e para minha equipe conseguir colocar mais um egresso [do sistema prisional] no mercado de trabalho. Com o prestígio do Afroreggae, conseguimos vencer o preconceito dos empresários e convencê-los a contratar. Isso tem um valor imenso para o indivíduo, que recupera a esperança de conseguir viver em sociedade e sustentar sua família.
ABN: O que muda na vida de um ex-traficante?
CP: No crime, a gente tem tudo aquilo [luxo, dinheiro, segurança], mas é ilusório. Por que você acaba perdendo o que ganha e muitas vezes nem chega a usufruir. No crime, a gente lida com o estresse do cotidiano continuamente. A todo o momento temos conflitos e desafios e não temos tempo para mais nada. E acabamos perdendo a paz e a identidade. Na sociedade também enfrentamos desafios, como preconceito e discriminação, mas temos tempo para refletir e tomar atitudes corretas. É maravilhoso viver em sociedade novamente.