

Em 50 anos de filmagens na Amazônia, Adrian Cowell deixou um impressionante legado de 7 toneladas de filmes em película, vídeos, fotos, áudios e cadernos de viagem. O acervo está no Brasil, no Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia (IGPA), da Pontífice Universidade Católica de Goiás, e pode ser consultado por qualquer pessoa no local.
Adrian nasceu na China, concluiu seus estudos em Cambridge, mas foi no Brasil que realizou seu trabalho mais importante. Foram 50 anos de deslocamentos pelos grotões da Amazônia onde descobriu e filmou tribos isoladas de índios em Rondônia, os primeiros movimentos dos garimpeiros em Serra Pelada no Pará, a primeira entrevista com Chico Mendes no Acre, onde também eternizou em película a primeira reunião do Conselho Nacional dos Seringueiros. A violenta disputa por terras em diferentes regiões do país também foi registrada pelas lentes de Cowell, assim como o heroico trabalho dos sertanistas descortinando um Brasil desconhecido da maioria dos brasileiros, entre muitos outros registros de valor histórico inestimável.
Em suas primeiras incursões pela floresta percebeu que os equipamentos de filmagem, extremamente sensíveis, eram facilmente avariados pelo calor úmido da Amazônia. De volta a Londres, expôs o problema ao fabricante, que descobriu uma espécie de resina capaz de proteger suas câmeras da exposição excessiva ao calor dos trópicos. Era metódico e disciplinado. Pendurava uma bússola no pescoço de cada membro de sua equipe para que ninguém se perdesse. Permanecia meses caminhando pelas matas comendo enlatados e carne de caça com direito a ataques inesperados de onça, cobra e mosquitos. Não raro, alguém caía com malária. Seu cinegrafista predileto e grande amigo, Vicente Rios, pegou malária três vezes. Ainda assim, a parceria durou 30 anos.
Graças aos documentários de Adrian Cowell, o Banco Mundial foi obrigado a rever os critérios de financiamento para polêmicos projetos de “desenvolvimento” na região Norte. Seus registros também determinaram mudanças no traçado de rodovias que atravessariam áreas ocupadas por agrupamentos indígenas isolados e até então desconhecidos. Premiadíssimo no exterior, ele nunca teve o reconhecimento devido por aqui.
Adrian Cowell morreu aos 77 anos de insuficiência respiratória no último mês de outubro, na véspera de mais uma viagem ao Brasil, onde pretendia reeditar o documentário “Killing for Land” (Matando por terra) filmado em 1990 e ainda inédito no Brasil. A opção de não exibi-lo no país se deveu ao cuidado de Cowell em não expor os personagens do documentário que denunciaram o envolvimento dos poderosos em massacres e irregularidades fundiárias. Mais de 20 anos depois, seguro de que certos depoimentos não implicarão mais em risco de morte para seus autores – embora os conflitos agrários continuem justificando muitos assassinatos no Brasil – ele voltaria ao país para concluir o trabalho. A missão agora está a cargo de Vicente, que também recebeu de Adrian Cowell a incumbência de zelar pelo acervo doado à PUC de Goiás.
(Com informação de Mundo Sustentável)